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elevador da bica

Livros que gostei de ler em 2010 (III)

21 dezembro 2010 :: Guarda-freio: J.


A Fundação Francisco Manuel dos Santos é recente mas já fez muito mais pela organização e a acessibilidade de muita informação estatística sobre Portugal do que décadas de administração pública desleixada e indiferente. O "site" Pordata honra a expressão "serviço público", neste caso praticado, e bem, por privados. E a isto, que já não é pouco, acresenta a edição de livros que analisam diversos aspectos da realidade nacional.

São obras com uma natureza muito prática, de leitura rápida, longe da ambição dos calhamaços académicos, e que visam fazer chegar a informação e a respectiva interpretação a um alvo alargado de pessoas interessadas em saber mais sobre por que estamos como estamos e como podemos sair de onde estamos. Entre os que li, selecciono "Portugal: Os Números", de Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas, e "Economia Portuguesa, As Últimas Décadas", de Luciano Amaral. São as duas faces de uma mesma moeda.

No primeiro, observa-se o trilho de sucesso de Portugal nas políticas sociais durante as décadas mais recentes, de que um dos indicadores mais impressionantes entre os vários que são citados é o recuo dramático da mortalidade infantil. No segundo, aborda-se a pesada factura que, em simultâneo, cresceu até colocar Portugal quase ao colo do FMI, em parte como contrapartida de um aumento das prestações sociais até a um nível que está acima das possibilidades actuais da economia portuguesa. Dois livros esclarecedores, sobretudo se a leitura de um for seguida da leitura do outro.

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Livros que gostei de ler em 2010 (II)

:: Guarda-freio: J.

Magnus Mills teve uma entrada triunfante no mundo da literatura. De motorista de autocarros em Londres passou a finalista do Booker Prize, em 1998, com o livro "O Curral das Bestas", o seu primeiro romance. Este e o livro seguinte, "All Quiet On The Orient Express", ainda tiveram direito a versão em português.

Depois, em Portugal abateu-se o silêncio sobre a obra de Mills. É pena, porque a capacidade de observação, a lucidez e o humor deste escritor mereciam mais atenção e divulgação. "The Scheme For Full Employment", por exemplo, é um tratado implacável e hilariante sobre as ineficiências e a inutilidade de muito do que se faz na Função Pública.

"The Maintenance Of Headway", a obra que justifica este "post", desvenda os segredos da gestão de uma rede de autocarros, com a habitual habilidade de Mills para colocar a nu o "nonsense" das grandes organizações. É uma realidade que Magnus Mills conhece bem porque, após o Booker lhe ter dado alguma fama, decidiu voltar a ser motorista de autocarros na capital londrina e manter a escrita como "hobby" lucrativo. Por estas bandas, é um autor de culto.

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Livros que gostei de ler em 2010 (I)

:: Guarda-freio: J.

A biografia é um género pouco cultivado em Portugal. Tem um sucedânio pobre que costuma resultar na edição de livros laudatórios. Visam mais exaltar as qualidades, reais ou virtuais, dos biografados do que fazer um retrato distanciado do percurso e da personalidade.

O livro de Filipe Ribeiro de Menezes, "Salazar, Biografia Política", foge da tradição e mostra como o discreto professor de finanças de Coimbra foi afastando adversários e apoiantes incómodos, acumulando poder e solidão até transformar o Estado Novo numa entidade que se confundia com o seu fundador e que só poderia existir enquanto este existisse. Será difícil fazer melhor.

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Tirar o santo do andor

20 dezembro 2010 :: Guarda-freio: FSC

Chega-se quase ao fim e ali estão, condensadas em poucos parágrafos, as fraquezas e virtudes de “Sá Carneiro”. Na pág. 606, Miguel Pinheiro (M.P.) relata o último almoço de Francisco Sá Carneiro (F.S.C.), horas antes de morrer. O estilo é o de todo o livro: escorreito, incisivo, impressivo, com pormenores q.b. e diálogos em discurso direto. A história é assim, foi isto que aconteceu — é isso que o autor nos diz.

O último almoço do fundador do PSD foi no Tavares Rico e, para além dele, estavam à mesa o candidato presidencial da direita, Soares Carneiro, e parte do estado-maior da AD: Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa, António Capucho, Cunha Rego, Luís Beiroco e Patrício Gouveia. Faltam três dias para as presidenciais e F.S.C. dá tudo por tudo pelo seu candidato, de cuja vitória fazia depender a continuidade como primeiro-ministro (cargo para que fora reeleito dois meses antes). M.P. relata um espantoso diálogo entre F.S.C. e o vice-primeiro-ministro (e líder do CDS), Freitas do Amaral. O presidente do PSD antevê a derrota do seu candidato presidencial (era previsível), reafirma que nesse caso ele e Freitas se demitem (já o tinham anunciado) e continua: “Alguém do meu partido vai aceitar ser primeiro-ministro com o Eanes. Nessa altura, eu abandonarei o PSD e ficarei uns tempos fora da política, a deixá-los espetarem-se.” E vai mais longe: “Não dou mais de seis meses a um ano a esse governo. O Eanes e o Conselho da Revolução não o deixarão governar. Quando isso se tornar patente, fundarei um novo partido, e estou certo de que as bases do PSD virão comigo. E você, Diogo? Aceitaria fazer parte comigo desse novo partido?” Freitas responde: “É claro que sim, Francisco, não hesitava um minuto.”

Num momento crucial da sua carreira política, F.S.C. admitia a derrota do seu candidato presidencial (à frente do próprio!) e anunciava a implosão do seu governo, da sua maioria e do seu PSD, desafiando o parceiro de coligação a ajudar — e isto perante altos dirigentes desses partidos. O problema é que esta fascinante conversa, transcrita entre uma perdiz e um charuto, provavelmente não aconteceu.

Não é a primeira vez que este episódio é relatado nestes termos, que são quase decalcados das memórias de Freitas do Amaral. Mas todos sabemos como a memória trai, sobretudo em causa própria — e já anteriormente as memórias de Freitas foram desmentidas por quem viveu os mesmos acontecimentos (a recente biografia de Amaro da Costa deixa a nu outro episódio em que Freitas tentou engrandecer o seu papel, sendo nesse caso desmentido por Veiga Simão).

O que seria apenas um problema de Freitas passa a ser um problema de M.P.: uma biografia que se apresenta com este fôlego não pode dar como matéria de facto o que não é senão uma versão da História. Bastava ao autor ter feito fact checking básico: podia, por exemplo, perguntar a António Capucho, que também esteve nesse almoço, se aquele diálogo existiu. O antigo secretário-geral do PSD diria o mesmo que nos disse: “Esse relato é totalmente desconchavado. Esse diálogo nunca aconteceu à mesa daquele almoço.” Sendo assim, talvez fosse prudente apresentar as duas versões. Só que isso estragava o ritmo da narrativa e a omnisciência do autor, que só uma vez admite existirem versões contraditórias sobre um acontecimento (pág. 582). M.P. passa ao lado da incerteza e do contraditório e opta pela versão que melhor encaixa na sua história.

Fica a dúvida: quantas vezes o autor fez o mesmo ao longo do livro?

A questão não é se Sá Carneiro pensava aquilo que o autor põe na sua boca. Tudo indica que sim — mas não o terá dito assim, ali. Sintetizar o pensamento de uma personagem num momento simbólico é um recurso comum na literatura e nos seriados televisivos “inspirados em factos reais”. Mas não se recomenda numa biografia que quer ser factual.

Desde as primeiras páginas que M.P. cai nesta tentação de romancear: não admite dúvidas, não poupa nas descrições de estados de alma, não hesita em polvilhar as páginas com diálogos em discurso direto, até entre o bisavô e o avô de Sá Carneiro (pág. 20), em 1861 (!). É uma opção deliberada. Nem é original e facilita a leitura — de facto, o livro lê-se de uma penada —, mas deixa a desejar em rigor.

É pena, pois esta biografia tinha tudo para ser uma das melhores empreitadas do género em Portugal. Há um notável trabalho de pesquisa, recorrendo a inúmeras entrevistas, bibliografia, jornais, registos sonoros de reuniões do PSD, arquivos online e arquivos pessoais nunca antes disponibilizados — nomeadamente o precioso e raro contributo de Isabel Sá Carneiro, que faz o perfeito contraponto entre o homem e o político. Esse material é a base para uma narrativa habilidosa e exaustiva. Por vezes, dá a sensação de que não ficou nada por contar.

M.P. constrói um relato detalhado e épico do percurso de Sá Carneiro, com grandezas e misérias e um manancial de episódios — e consegue entretecê-los sem nunca se desfocar do fio da narrativa. E, mais importante, sem embarcar na mitologia que se construiu em torno de Sá Carneiro. O autor tira-o do andor onde o PSD e o país político o colocaram no dia do seu funeral. Mostra-nos o homem frágil e instável, o combatente inflexível, o político imprevisível, o governante maniqueísta, o estadista visionário, o dirigente autoritário. A história é tão boa que não precisava de ser romanceada.

Crítica publicada no suplemento Atual do Expresso, 19-12-10

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A biografia do Alberto João

09 julho 2010 :: Guarda-freio: Vìtor Matos

A Maria Henrique Espada, jornalista da SÁBADO, lançou ontem a biografia de Alberto João Jardim, editada pela Esfera dos Livros. Vale a pena ler a investigação que levou três anos a escrever. Por exemplo: não há registos da eleição ou do dia da chegada de Alberto João à liderança do PSD-Madeira, o que não deixa de ser curioso. Em várias entrevistas ao longo da vida, Jardim explicou como escolheu os deputados a Assembleia Constituinte, mas nessa altura ainda não era líder. Provavelmente, só o foi no Verão quente de 1975 e andou depois a tentar reescrever a história.

Entrevista da Maria à Antena1.

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Leitura de elevador

14 junho 2010 :: Guarda-freio: FSC


YOANI SÁNCHEZ, cubana, 34 anos, mãe de um filho, tem uma história quase banal. Como tantos cubanos da sua geração, tem uma licenciatura e sobrevive de biscates (ensina espanhol a estrangeiros), passa horas nas filas do talho, da padaria e nos mercados semivazios de Havana para abastecer a despensa doméstica. Como é normal na sua geração, tem um nome exótico começado por Y, sinal de tempos em que inventar o nome dos filhos era o cúmulo da liberdade. Como tantos outros, fugiu de Cuba decidida a não voltar.

Mas voltou. Começa neste regresso, em 2004, a história excepcional desta mulher normal. Yoani sabia ao que voltava e sabia que, ao aterrar em Cuba, não poderia sair outra vez. Não há argumento que convença o regime a deixá-la sair da ilha — nem o facto de Yoani ser hoje uma celebridade, graças a um blogue (‘Geração Y’) que se tornou uma janela através da qual o mundo acompanha o absurdo quotidiano no país dos Castro. “Cuba Livre” é uma selecção de posts desse blogue, que valeu a Yoani o reconhecimento mundial (em 2008, a “Time” incluiu-a na lista das cem personalidades mais influentes do mundo).

Textos incisivos e reflexões bem humoradas sobre a aventura de ser um blogger num país onde é quase impossível aceder à Net e sobre ser livre num regime autoritário. Mas sobretudo sobre a aventura de (sobre)viver onde falta quase tudo mas sobra a propaganda e a burocracia. Textos sobre gente que sonha com carne, que desiste de ter filhos porque não há casas, que vê fugir todos os amigos (e até esse “amigo” à distância que era o apresentador mais famoso da TV cubana), que vasculha os armários e a árvore genealógica para provar a ascendência espanhola e conseguir um novo passaporte. Gente que desespera para comprar limões, que duvida dos conhecidos e suspeita dos estranhos, que “não acredita nos boatos nem nos factos”.

Gente que resiste mas se sente cobarde.“Lembro-me do dia em que contámos ao meu filho que ele [um amigo] estava preso. O meu marido disse-lhe: ‘Teo, o teu tio Adolfo está preso porque é um homem muito corajoso.’ E com a típica lógica infantil, Teo concluiu: ‘Então vocês ainda estão livres por serem um bocadinho cobardes.’”

Publicado no suplemento Actual, do Expresso, 12/06/10

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Para ler no Elevador

09 junho 2010 :: Guarda-freio: Vìtor Matos

Concordemos ou não (a conclusão só a podemos tirar no fim), valerá a pena ler o novo livro do historiador Tony Judt, Ill Fares the Land para nos questionarmos de forma crítica sobre o caminho que as nossas sociedades estão a levar. Na introdução, temos pistas sobre uma série de assuntos que também nos dizem respeito hoje em Portugal: o Estado social, as privatizações, as gerações perdidas dos anos 80 e 90; a tensão entre a social-democracia (que também é liberal) e o liberalismo (ou libertarianismo económico); as visões norte-americanas e europeia; a desregulação dos mercados; etc, etc. Para já, podemos ler online a Introdução  do livro no NYT.

Excerto do livro no The New York Times.

Recensão do Público aqui.

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Lido no Elevador

24 agosto 2009 :: Guarda-freio: João Cândido da Silva

Imaginem-se duas expedições em competição para conseguirem chegar a um local designado "Agreed Furthest Point", o lugar da Terra mais afastado de qualquer sinal de civilização. É este o ponto de partida para "Explorers of the New Century", de Magnus Mills, um livro de aventuras que evoca os grandes exploradores das regiões polares, mas com o talento muito especial deste escritor para subverter aquilo em que toca.

Para quem aprecie, sobretudo, as novidades acabadinhas de sair, este não é o mais recente dos romances publicados pelo autor. Há poucos dias foi lançado "The Maintenance of Headway", que, através da capacidade de observação e da apuradíssima ironia de Mills, promete grandes revelações sobre como é, na verdade, ser motorista de autocarros em Londres, profissão em que o escritor tem experiência.
Feito o aviso, segue-se a recomendação: "Explorers of the New Century" merece ser lido, sobretudo por quem aprecia o "non sense" levado aos limites que é a grande marca da obra de Magnus Mills.

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O pleno emprego, segundo Magnus Mills

27 janeiro 2009 :: Guarda-freio: João Cândido da Silva

A vaga de intervenções prometida para salvar empresas em dificuldades, faz temer pela quantidade de lixo que o Estado - isto é, todos nós - terá nos braços depois de passar a tempestade, caso a racionalidade nas decisões seja subjugada aos interesses políticos e eleitorais imediatos.

Este livro, resultado da ironia de lâmina bem afiada que caracteriza a escrita de Magnus Mills, é um excelente retrato do que pode suceder quando, em nome do "pleno emprego", se criam e sustentam organizações que não servem para mais nada.

Apesar de se tratar de uma obra de ficção, em certa ocasião encontrei-o na prateleira dedicada aos livros de economia e gestão na loja da Fnac, no Chiado, em Lisboa. Desta, acho que nem Mills se lembraria e tenho a certeza que, se alguém lhe contasse, iria achar simplesmente genial.

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