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elevador da bica

Um cozinheiro céptico?

24 agosto 2010 :: Guarda-freio: J.

O café/restaurante "Magnetic", na Conde Valbom, em Lisboa, tem detalhes de serviço hilariantes pela sua rigidez irredutível. No domingo passado, por volta das três horas da tarde, qualquer pedido a partir da lista tinha um tempo de espera de, pelo menos, vinte minutos. Em alternativa, quem não pudesse, ou não quisesse, esperar, teria que resumir a escolha a uns quantos salgados, a única oferta que estava disponível.

Havia uma greve? O fogão estava avariado? A cozinha estava em obras? O pessoal estava na praia? Não. Acontecia, simplesmente, que o cozinheiro tinha ido almoçar fora. É justo reconhecer que os cozinheiros também têm direito a tomar as suas refeições onde bem entenderem. Mas já é um pouco estranho que um estabelecimento que promete servir a toda a hora se deixe ficar descalço, e perca negócio, por não funcionar de forma a evitar vazios como este.

O mais importante, porém, está na seguinte questão: por que foi o cozinheiro do "Magnetic" almoçar fora, deixando os clientes pendurados? Se quis, apenas, variar, está tudo bem. Se optou pela concorrência ou por ir a casa é que há razões para começar a desconfiar. Se o próprio cozinheiro não aprecia aquilo que faz, quem vai apreciar?

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Portugal dos pequeninos (versão restaurante)

09 agosto 2010 :: Guarda-freio: FSC

Eu sei que há um Portugal cosmopolita, moderno, de vistas largas, que investe na qualidade. E sei que uma boa parte desse Portugal se encontra no sector da restauração. Mas o Portugal pequenino, atávico, que não é capaz de ver mais longe do que o fecho de caixa de cada dia continua na porta ao lado. No outro dia entrei lá.

Um amigo, júri do concurso Lisboa à Prova, convidou-me para almoçar num dos restaurantes concorrentes aos Garfos de Ouro (breve explicação: esta malta que avalia restaurantes gosta de levar companhia, entre outras razões, porque assim pode experimentar mais pratos e avaliar com mais propriedade). As provas estão na primeira ronda, o que significa que a um júri, nesta fase, tanto calha um restaurante de luxo como a tasca da esquina. Calhou-me ser convidado para acompanhar o meu amigo a um restaurantezinho do Bairro Alto, um daqueles cochichos com poucos lugares, a patroa na cozinha e o patrão a servir.

Pedimos a única entrada cozinhada que constava da ementa (camarões na grelha), dois pratos do dia - um bacalhau e umas lulas recheadas - e um Bucelas de 7 euros. Simpatia q.b., comida honesta, nem boa nem má, mas em qualquer caso como daquilo, em muito melhor, em minha casa. Mais um doce, uma fruta, um café e a conta, nem 40 euros no total. Eis senão quando o meu amigo puxa o voucher da carteira e se apresenta como juri do Concurso Lisboa À Prova.

- Outro? Já é o terceiro! Isto assim não pode ser! Com esta já são seis refeições! - o homem espumava, por uma fracção de segundo deve ter-lhe passado pela cabeça bater em alguém.

O meu amigo tentou explicar que foi ele, o dono do restaurante, quem se inscreveu no concurso, e que as regras são claras: na primeira fase poderia ser visitado até três vezes e, se o restaurante passasse às fases seguintes, poderia ter um total de seis visitas, até receber o Garfo de Ouro, que corresponde à nota máxima (risco que este restaurante manifestamente não corria). O homem queria lá saber de explicações.

- Não me disseram nada disso! Pensei que viessem cá comer uma vez e chegava. Mas três vezes!... Com esta crise!?... Agora não recebo por esta refeição!? Diga lá que não sirvo mais nenhuma. Se vier cá mais algum do concurso, eu obrigo a pagar!

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Elevador da boca

06 agosto 2010 :: Guarda-freio: J.

Esta ideia de os restaurantes aproveitarem o facto de terem ganho fama para expandirem actividades a novas localizações é capaz de não ser boa política. O "Nobre", outrora um clássico de Lisboa, começou a estampar-se ao comprido por alturas na Expo 98. O "Peralta", que mais tarde abriu actividades num hotel da capital para explorar os créditos conquistados em Alfarim, também não correu bem.

A lista não acaba aqui, porque se pode acrescentar o "Aqui Há Peixe", muito badalado na zona da Comporta e que, faz agora um ano, se instalou na Rua da Trindade, bem no coração turístico lisboeta. Acontece que a comida que serve, não sendo má, também não deslumbra. Pelo menos, é o que sucede com as anchovas, enterradas em sal e cebola suficientes para esconder tudo o resto, ou com o esparguete com carabineiros, dose com quatro pequenos exemplares plantados no topo de um montão de massa e molhanga. Tudo demasiado banal.

Se o diabo ronda os pratos principais, quando se chega aos detalhes as coisas não ficam melhores. O serviço, que costuma matar com frequência projectos de grandes pretensões, é tão cuidado que, numa mesa ocupada por duas pessoas, serve a água a uma mas ignora a outra e repete a dose com o vinho, que nem sequer é dado a provar. Para a fama, as expectativas e os preços praticados, ali há peixe mas aqui há gato.

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Mistérios da vida moderna

12 maio 2009 :: Guarda-freio: João Cândido da Silva

"Peixe na Linha", reza o nome do restaurante. Tem direito a referências encomiásticas em diversos jornais. Um pouco exageradas, direi eu, que achei o arroz de peixe bastante banal e incapaz de honrar o Quinta do Carmo, branco, que lhe fez companhia.

Bom, o mistério não está aqui. Está na seguinte questão: por que motivo, num restaurante situado num local privilegiado à beira-mar e que tem pretensões de ser um lugar de alguma sofisticação, os empregados trocam gracejos e comentários, de uma extremidade da sala para a outra, sobre assuntos que só a eles dizem respeito, enquanto os clientes apenas tentam tomar a sua refeição na expectativa legítima de pagarem, e razoavelmente bem, para não serem incomodados?

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