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elevador da bica

O'Neill, galinhas e pobres: um tema polético

31 dezembro 2010 :: Guarda-freio: Vìtor Matos

A temática das galinhas a fugirem de pobres com pedaços de côdea no bico parece ter muito de político mas é sobretudo poético. Agradecemos as imagens de Fernando Nobre e do camarada Chico Lopes, mas sobre esse tema em concreto preferimos Alexandre O'Neill:

Histórias quadradinhas: o provérbio chinês

O pobre corre atrás da galinha.
A galinha, còcòri-pescoceando, foge-lhes sobre
os dois garfos, sobre as duas baquetas
em rajada de baterista. «Vale a pena!
Vale todas as penas!», silva bronquiticamente o
pobre. A galinha derrapa, quilha de rojo.
O pobre joga-lhe para cima o maxi-farrapo da jaqueta.
Falha. Vai de gengivas ao chão. A galinha
reencorpora-se, estica os garfitos, sacode
a asa. Do bico sai-lhe um balão:
QUANDO O POBRE COME GALINHA...
«Isso é um provérbio chinês!, indigna-se,
queixos no pó, o pobre.
E a charlotada termina - quadradinho que
se segue - com a galinha toda coqueta,
afastando-se (à bandarilheiro contemplado
com música?) e fazendo estourar, fumaça de vaidade,
outro balão:
... UM DOS DOIS ESTÁ DOENTE.

(em As Horas Já de Números Vestidas - 1981)

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Bica & Bagaço - 2.1

17 maio 2010 :: Guarda-freio: Vìtor Matos

Em resumo: é como se vetasse, mas não veto, porque não podia vetar outra vez e aqueles malandros não me iam dar ouvidos.

Cavaco promulgou o casamento gay porque sabia que a lei lhe voltaria a queimar as mãos e teria de a promulgar na mesma. Não vetou porque o veto era inútil. Acontece que no semi-presidencialista, a outra parte do semi (a parlamentar) tem legitimidade para decidir, sobretudo quando a decisão tem por detrás o voto de deputados de vários partidos. Justificou-se assim Cavaco perante o seu eleitorado. Mas ao dizer que não valia a pena vetar, resignou-se ao facto de achar que os partidos não ajustariam as suas posições. Assim, fez mais uma declaração oficial de impotência presidencial em relação ao Parlamento, tal como na primeira declaração sobre o Estatuto dos Açores. Se acreditava nas justificações que deu, devia ter sido consequente. A crise financeira não se agravaria. Se tem razão, as suas razões seriam pelo menos debatidas. Cavaco diz que o tema divide os portugueses, mas foi isso que sempre afirmou sobre este tema, o aborto, ou até a regionalização. Acontece que a crise e as suas soluções também dividem os portugueses e não é menos. Cavaco gosta de uniões nacionais. Mas democracia é mais ao contrário, sobre saber lidar com divisões: é sobre a metade que não governa aceitar o poder da que manda; e sobre a parte que manda aceitar os limites do seu próprio poder.

Sai uma bica e um bagaço.

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Bica & Bagaço - 2

:: Guarda-freio: Vìtor Matos

Cavaco Silva fará hoje uma comunicação oficial sobre o casamento homossexual.

Uma declaração ao país, coisa pesada e solene, deve trazer decisão grave. Mas não parece em linha com o que Cavaco sempre defendeu. Quando questionado sobre o assunto na campanha presidencial de 1996 e na de 2006, e até depois de ser Presidente, Cavaco disse sempre que havia assuntos mais importantes para tratar. Assim sendo, logo nesta fase em que há assuntos muuuito mais importantes para tratar, Cavaco sobreleva finalmente o tema e dá-lhe mais atenção do que a pior crise vivida em Portugal nas últimas décadas. Cavaco Silva nada disse ainda sobre os sacrifícios exigidos aos portugueses e, recorde-se, foi eleito numa campanha assente nos argumentos do crescimento económico, para Portugal não ficar atrás dos países de Leste.

Só há dois cenários possíveis, nenhum deles bom para o Presidente e futuro candidato:

a) O PR vai anunciar um veto à lei, aprovada por uma maioria de deputados num Parlamento onde nenhum partido tem maioria, e na qual o Tribunal Constitucional não viu inconstitucionalidades. Vai cavalgar o ambiente proporcionado pela visita do Papa, posicionando-se como um protagonista conservador e colado à Igreja, exercendo uma acção política marcadamente ideológica, o que contrasta com a ideia que sempre quis dar de si, de pragmático, institucional, avesso a dogmas ideológicos. Se bem que um veto justifique mais uma comunicação oficial do que uma promulgação, neste momento haveria motivos bem mais graves do que este a merecer uma declaração oficial do PR.

b) O PR vai anunciar a promulgação do casamento de pessoas do mesmo sexo, desculpando-se com o facto de, muitas vezes, promulgar leis das quais discorda. Justificará a sua decisão por dever institucional. Embora não o diga, sentir-se-á obrigado a fazer uma comunicação ao País por causa do seu eleitorado (em parte conservador e católico) até porque a visita do Papa criou um ambiente de expectativa em relação ao assunto. Dirá, imagino, que este acto de contrição é uma questão de consciência. Se for para anunciar uma promulgação, mais uma vez, Cavaco teria assuntos mais importantes para comunicar ao País. Assim, parecerá que já está a usar a Presidência para fazer campanha eleitoral, pois esta é uma decisão desconfortável para boa parte do seu eleitorado.

Sai uma bica e um bagaço.

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Bica & Bagaço - 1

12 maio 2010 :: Guarda-freio: Vìtor Matos

O homem aguentou tudo: o aumento do IVA, o caso da licenciatura, as manifestações dos professores, o processo Cova da Beira, a investigação ao Freeport, o mau gosto das casinhas, a crise do subprime, o disparo do desemprego, a derrota nas presidenciais, a derrota nas autárquicas, a derrota nas europeias, o fim da maioria absoluta, os baixos níveis de crescimento, a maior crise dos últimos 80 anos, a mudança da Ota para Alcochete, os corninhos de Pinho, o deserto de Lino, a relação com Cavaco... e agora os gregos.

José Sócrates capitulou.A partir deste momento, lidera não um Governo mas um gabinete de gestão de crise que não tem o FMI cá dentro porque é obrigado a evitar que o FMI e quejandos cá entrem. O seu projecto morreu-lhe nas mãos. Não se ouve falar de choque tecnológico. Adiam-se grandes obras. Perdem-se muitos 150 mil empregos. Vai-se ao bolso da malta para safar o País. Aumentam-se impostos. Nada a fazer. Só à força é que Sócrates foi obrigado a fazer face a uma realidade que sempre negou. Ele sempre negou o diagnóstico. Portanto, não podia aplicar a terapêutica. Estamos em fase de reanimação.

O ciclo político de José Sócrates acabou. Sempre que telefona a Passos Coelho faz dele mais primeiro-ministro. O jogo está redistribuído. Resta saber até quando. E se Sócrates vai persistir ou ceder o lugar a outro.

Sai uma bica e um bagaço.

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