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elevador da bica

O'Neill, galinhas e pobres: um tema polético

31 dezembro 2010 :: Guarda-freio: Vìtor Matos

A temática das galinhas a fugirem de pobres com pedaços de côdea no bico parece ter muito de político mas é sobretudo poético. Agradecemos as imagens de Fernando Nobre e do camarada Chico Lopes, mas sobre esse tema em concreto preferimos Alexandre O'Neill:

Histórias quadradinhas: o provérbio chinês

O pobre corre atrás da galinha.
A galinha, còcòri-pescoceando, foge-lhes sobre
os dois garfos, sobre as duas baquetas
em rajada de baterista. «Vale a pena!
Vale todas as penas!», silva bronquiticamente o
pobre. A galinha derrapa, quilha de rojo.
O pobre joga-lhe para cima o maxi-farrapo da jaqueta.
Falha. Vai de gengivas ao chão. A galinha
reencorpora-se, estica os garfitos, sacode
a asa. Do bico sai-lhe um balão:
QUANDO O POBRE COME GALINHA...
«Isso é um provérbio chinês!, indigna-se,
queixos no pó, o pobre.
E a charlotada termina - quadradinho que
se segue - com a galinha toda coqueta,
afastando-se (à bandarilheiro contemplado
com música?) e fazendo estourar, fumaça de vaidade,
outro balão:
... UM DOS DOIS ESTÁ DOENTE.

(em As Horas Já de Números Vestidas - 1981)

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Música de Elevador

11 fevereiro 2009 :: Guarda-freio: Luís Miguel Afonso

O Maquinista
Fevereiro, 2009 :: Periscópio

Hoje tentei roubar a luz da cidade.
Mas, ao envolver a lâmpada entre as minhas mãos,
O povo olhou-me com fé
E esculpiram um Cristo no meu corpo de madeira.
Levaram-me em procissão pelas ruas de Alfama
E ao descer a calçada,
Soprei espuma branca
Cobrindo as ruas em direcção ao rio,
Onde mulheres cansadas
Lavam a roupa dos filhos da revolução.


O Maquinista é a nova face de João Branco Kyron, vocalista dos lisboetas Hipnótica. Neste seu primeiro trabalho a solo, as palavras são o suporte e a substância da música que este "anjo perdido nas ruas de Wender" pretende arvorar na alma de cada um de nós. O disco apresenta um conceito algo diferente daquilo que estamos habituados, não só pela utilização da Spoken Word, mas também pelo íntimo cuidado que colocou na apresentação física da sua arte, recorrendo à fotografia de Lois Gray ou à ilustração de Pedro Gundar. Cada disco é assim uma obra única em todos os sentidos, a lembrar que ainda vale a pena ter a música na mão. A escutar, com um pouco mais de atenção do que é habitual...

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